(Colocar aquela frase que diz que principalmente o teatro por abordar as outras artes dentro dele)

Eu e o teatro

Tenho hoje uma escola que tem no teatro seu eixo principal. Acredito no teatro não só como uma matéria, mas um projeto de vida. Me formei através do teatro e não faço teatro, sou teatro.

Quando criança, estudei em diversas escolas estaduais e municipais, onde tinha ‘educação’ formal, mas a construção do meu eu, da minha autonomia e até da compreensão do ‘o que fazer’ com o que aprendia na formalidade se deu na ‘informalidade’. Foi no teatro que descobri o verdadeiro significado da palavra grupo, coletivo, democracia, autoridade e liberdade.

Aos 8 anos, no meu grupo teatral formado por diversos atores, todos bem mais velhos e experientes que eu, me sentia fazendo parte de algo, onde a minha contribuição era fundamental, independente da quantidade de ‘horas de conhecimento’ que eu tivesse, mas onde a qualidade do meu trabalho e a responsabilidade que eu assumia diante dele era imprescindível. A minha ausência traria um grande prejuízo para todos, ficaria faltando uma parte importante do todo. Lá, todos podíamos opinar e contribuir, mas a direção era clara. Não me sentia insegura nem oprimida e, a partir do que era a minha contribuição, a minha personagem, embora estivesse seguindo o que a direção estabelecia, a coreografia, o texto e sua seqüência exata e precisa, as músicas, enfim, tudo o que determinava o ‘andar do espetáculo’, mesmo assim eu tinha total liberdade de desenvolver a minha personagem, criar e recriar, dando o melhor de mim.

E as relações em grupo!? Quem é ator sabe do que estou falando. Mas percebi logo que o respeito e a ética eram fundamentais e, assim, um exercício constante de cidadania! Lá também descobri a diferença entre o mundo das idéias e a realidade. Onde o primeiro pode ser o ponto de partida ou fornecer subsídios para o segundo, mas o real, o real só acontece na ação. É incrível ver um papel cheio de letrinhas (bidimensional – conceito que eu havia escutado na escola mas que não compreendia realmente) se transformar em algo tridimensional, algo vivo. Também vi isso acontecer nos desenhos iniciais dos cenógrafos e figurinistas, que saíam do papel e se tornavam algo real e palpável. Cada peça do figurino, cada adereço ou parte do cenário continham matemática, história, geografia, e tudo estava ali!

E com os textos, quanto de português aprendi, não só gramática mas também a percepção de que o que ali estava escrito, da forma gráfica mais perfeita possível dentro da língua portuguesa, com toda a parafernália de verbos, adjetivos, substantivos, sinais gráficos…Os textos podiam, ainda assim, abrir-se a diversas compreensões de acordo com as entonações, e, dependendo de como se transformavam na boca de cada ator, as palavras poderiam ter um significado diferente, ser compreendidas de maneiras tão distintas a partir da percepção e compreensão de cada um. Mais tarde descobri ainda que não importa a língua escrita, isso ocorre em qualquer idioma e podemos passar as informações, em qualquer idioma, através de nossas entonações e a da expressão dos nossos sentimentos.

No teatro descobri que, para compreender um texto e até mesmo para negá-lo, precisamos estudar muito, mas muito mesmo, principalmente para negá-lo, e foi quando ficou então claro para mim o conceito de liberdade – tão diferente de inconsequência e tão confundida com ela. Posso ter liberdade para fazer o que quiser, desde que saiba o que estou fazendo, e isso dá um trabalho… conhecer é realmente algo muito trabalhoso! Por exemplo, em relação a um texto, quem o escreveu, em que contexto, em que época, onde, para quê ou quem, e dá-lhe estudo (geografia e história no mínimo!).

Atuei no teatro até abrir a minha escola de educação infantil e ensino fundamental, onde a cada dia procuramos vivenciar com nossas crianças todos esses conceitos fazendo teatro. Nela, a intenção não é formar artistas, mas pessoas, não é apenas educar, mas trazer cultura, viver cultura, reconhecer a cultura existente em cada um, em cada lugar.

O teatro funciona também como um foco de interesse, algo a ser desenvolvido, como um caminho claro a ser trilhado, trazendo um produto final compreendido pelos alunos. É um estímulo para o desenvolvimento do que tem de ser estudado. Para as crianças, estudar algo simplesmente porque ‘quando eu for adulto precisarei destes conhecimentos para…’ (mesmo que muitas vezes não se saiba bem para quê) é algo muito vago. Agora, encarar os conteúdos transmitidos entendendo: preciso desses conhecimentos para desenvolver minha personagem, realizar da melhor forma essas coreografias dentro de determinado espaço e em determinadas direções, reconhecer o meu sistema respiratório e muscular para ter fôlego e cantar enquanto danço, aprender cálculos matemáticos para projetar adereços, maquete do cenário ou mesmo o próprio cenário, ler o texto fluentemente, fazendo uso das regras ortográficas para minha melhor compreensão do que estou dizendo, entre tantas outras coisas, os motiva e, motivados, eles se desenvolvem felizes e com paixão. Sim, paixão! É isso que vejo surgir nos olhos dessas crianças que se apaixonam pela escola, que não querem faltar, ter férias ou finais de semana.

E as apresentações realizadas no final do ano acontecem em lugares diferentes, na própria escola, num teatro no Parque da Água Branca, num teatro próximo à escola, mas, independentemente do local, é o momento onde se apresentam, mostram seus conhecimentos, a dedicação de um ano de trabalho duro, mas que valeu a pena, pois a hora é só deles. Prontos, com textos, coreografias, músicas, marcas decoradas, figurinos finalizados, o cenário pronto, o cartaz confeccionado por eles. Ao entrar em cena eles são o foco de interesse de pelo menos duzentos pares de olhos atentos e emocionados.

Quer um momento melhor para chamar a atenção sem precisar de birras, ‘malcriações’, jogos que não levam a nada?! Estão, neste momento, cobertos de atenção. E a coragem destas crianças que, sozinhas (Sozinhas?), levam um espetáculo de 50 minutos. Entrar em cena… esse pequeno instante que necessitamos de muita coragem, disciplina, concentração. E, no final, aplausos. Aplausos merecidos e verdadeiros pelo empenho despendido. Esse é o foco de interesse deles, compreendido por todos num curto prazo. Isto os motiva tanto que, no ano seguinte, os ouvimos cantando pela escola as músicas da peça encenada no ano anterior. Aos poucos vão se despedindo da montagem anterior como se fosse um amigo querido sempre lembrado e, só depois, aos poucos, carinhosamente, nós, “professores”, vamos lhes apresentando a próxima peça que será encenada e, também aos poucos, eles vão novamente se apaixonando.”

Georgya Correa, atriz, pedagoga e diretora da Teia Multicultural

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